Em arte não há nada mais inútil que a verdade. Ou artitudes – e para que o eu não se destrua

 

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Em arte não há nada mais inútil que a verdade. E algures esta inutilidade não se reserva apenas à arte, mas a toda a realidade. A realidade como verdade e a sua inutilidade asfixiam a existência. E esta consciência convoca um estar que só a arte permite. Mas uma arte que não seja refém da comunicação. Uma arte que não resulte mordoma da comunicação com sua serviçal ferramenta. E esta é uma das balizas para a arte sociológica quando arte comprometida. O incumprimento do libertar-se da realidade resultará fatal. E este é o abismo. O seu ser suspenso.
Este caminhar no fio da navalha, seguindo entre uma chuva de flechas, torna-se na constante artitude convulsa de gRitos. E é no mergulho nesses gRitos constantes que a realidade se conFunde e transfigura. Arte como transfiguração. O que transFigura para além da Figura. Obrigando a todo um transcender, a um transcender o eu próprio. Um eu liberto da comunicação, para uma comunicação liberta, e porque aí liberta, comunica não a verdade nem a realidade, mas a liberdade. A liberdade de ser para além de si. Gerador da arte como uma outra natureza. Esse desígnio de Novalis.
A arte, suas artitudes_gRitos, resolve-se nesses abismos na procura de um mergulho de elevação. Um saltar para cima. Sem a queda na comunicação afogada pela realidade sempre vestida de inúteis verdades inúteis.

Artitudes, sem o pânico das grandes coisas, pois “as grandes coisas se acabam…São as pequenas coisas que perduram” (Andrei Tarkovski).

António Barros (2020)

Armando Azevedo (1946-2020)

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Poeta é aquele que vai morrer

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Na minha infância, meu pai apresentou-me em casa um artista amigo – António Areal, de rosto pálido, doente – dizendo que ele ia morrer. Aí logo aprendi que: artista é aquele que vai morrer.
Hoje o retrato do mundo diz: poeta é aquele que vai morrer.
António Barros (Coimbra, junho de 2020)
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